A indústria de meios de pagamento no Brasil passa por um momento de grandes mudanças.

* Jeane Simon e Lais Carnival

O ano de 2020 trouxe duas novas variáveis à equação: Pix e WhatsApp, além do impacto da pandemia de COVID-19 na economia. Que papel cada um deles vai desempenhar e de que forma o mercado reagirá?

No dia 16 de novembro deste ano, entra no ar o Pix, plataforma de pagamentos instantâneos do Banco Central do Brasil. Como neste tipo de operação a transmissão da ordem de pagamento e a disponibilidade de fundos para o usuário recebedor ocorre em tempo real, ela deve concorrer primariamente com os pagamentos com cartão de débito, DOCs e TEDs. A plataforma ficará disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, todos os dias no ano.

O posicionamento do BACEN é que o Pix chegou para ser uma outra opção de pagamento e, sendo uma plataforma aberta, fomenta a competição entre os parceiros.

Um pagamento utilizando o Pix poderá ser iniciado através de um QR Code (que pode ser gerado através de uma carteira digital, por exemplo), de chaves (como o número do celular, CPF, CNPJ ou e-mail), ou por tecnologia de aproximação.

O custo do BACEN será de 1 centavo de real a cada 10 transações, o que torna o sistema inicialmente muito barato, apesar de que ainda não se sabe de que forma será monetizada a solução dos parceiros que disponibilizarão a última milha a pagadores e recebedores.

A solução de pagamento instantâneo também traz um impacto positivo em toda a parte de reconciliação e gestão de estoques do varejo, que hoje separa o produto aguardando pela confirmação da compensação, para depois seguir com a postagem ou ainda retornar o produto ao estoque.

Por outro lado, no mês de junho o Facebook fez grande lançamento com repercussão mundial, anunciando a disponibilização de uma nova funcionalidade de pagamentos na plataforma do WhatsApp, que chegaria através das atualizações aos usuários brasileiros a partir de julho.

O brasileiro é um heavy user do WhatsApp (hoje são 120 milhões de usuários) e se comunica de forma ampla e diversa pela plataforma, não só pessoalmente, mas também com empresas, lojas e comércios em geral.

A venda usando o WhatsApp como canal aumentou significativamente no cenário de pandemia, devido ao fechamento dos pontos de venda físicos. Com isso, adicionar a funcionalidade de pagamento à ferramenta é positivo para a experiência do usuário, pois tudo pode resolvido dentro da plataforma.

No seu desenho de lançamento, o pagamento poderia utilizar somente cartões dos bancos Nubank, Banco do Brasil e Sicredi, a credenciadora Cielo e os sistemas MasterCard e Visa.

Neste momento, a solução de pagamento do WhatsApp encontra-se bloqueada pelo Bacen. Conforme divulgado na mídia (link abaixo), o BC afirmou em nota que: "A motivação do BC para a decisão é preservar um adequado ambiente competitivo, que assegure o funcionamento de um sistema de pagamentos interoperável, rápido, seguro, transparente, aberto e barato".

Mais adiante, afirma que "O eventual início ou continuidade das operações sem a prévia análise do regulador poderia gerar danos irreparáveis ao SPB notadamente no que se refere à competição, eficiência e privacidade de dados."

Em nota, o WhatsApp também informou que o "objetivo é fornecer pagamentos digitais para todos os usuários do WhatsApp no Brasil, com um modelo aberto e trabalhando com parceiros locais e o Banco Central"

Observando-se todos esses movimentos, o mais importante é constatar que o consumidor brasileiro terá mais opções. O Pix traz a possibilidade de inclusão de consumidores não bancarizados e uma plataforma rápida, barata e disponível. Por outro lado, o WhatsApp, uma vez liberado pelo Bacen e podendo contar com mais opções de pagamento, trará maior praticidade e melhor usabilidade aos milhões de usuários brasileiros.

Hoje o país tem cerca de 45 milhão de não bancarizados e 230MM de smartphones. Logo, ambas as soluções, juntamente com os cartões de crédito e débito, trabalharão juntas para diminuir o percentual de pagamentos feitos em dinheiro, acelerando a migração para o pagamento eletrônico.

O próximo passo é ver como essas soluções vão interagir.

Com tudo isso, acreditamos que esses serão movimentos de mercado importantes daqui para a frente:

  • O Pix poderá ser a próxima opção de pagamento do WhatApp?
  • Onde mais serão aceitos cartões de crédito e débito?
  • Que papel as carteiras digitais terão para viabilizar os pagamentos de Pix e cartões?
  • Quais dessas soluções serão as preferidas pelo consumidor?
  • Que serviços as fintechs poderão oferecer utilizando o chassi do PIX?
  • Que impacto teremos na grande fatia de mercado que hoje ocupa o dinheiro, cheque e boleto?
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 Jeane Simon é Diretora de Marketing da América Latina no Grupo Ingenico.

Lais Carnival é Senior Manager de Inovação da América Latina no Grupo Ingenico.